Caminhos da Alma

Uma Aventura em Lima

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Dia 11:

Depois de onze horas de voo, aproximarmo-nos de Lima é uma lufada de ar fresco. O contraste da paisagem –  cheia de montanhas com neve no topo, mar e verde – é algo de fabuloso e faz-nos sentir que valeu a pena vir tanto tempo sem dormir e com dores no corpo. Por outro lado, quando procuramos os edifícios a que estamos habituados, encontramos casas baixinhas cor de terra e com ar pouco convidativo.

O señor Angel foi buscar-me ao aeroporto. Gosto de aventuras, mas juro que nunca iria alugar um carro no Peru. Ele já está habituado a conduzir sem linhas nas estradas, sem regras de prioridade e no “salve-se quem puder”. Além dos carros, é preciso ter muito cuidado com as pessoas, que atravessam a estrada a correr (pudera, ninguém pára nas passadeiras…). O calor asfixiante também impede que as pessoas se mantenham muito tempo paradas.

Lima é cheia da contrastes. A primeira ideia é a de que chegámos ao Terceiro Mundo, sem ordem nem limpeza. Chega a meter medo, sobretudo depois do que lemos nos guias. Mais tarde perguntamos no hotel e ficamos a saber que estamos bem no centro da cidade, que está longe de ser perigoso como nos diziam. Para defender os turistas e transmitir que estamos seguros, há polícia a cada esquina das artérias principais. E o medo vai-se desvanecendo.

Para início de visita, vamos seguindo o que nos é indicado nos guias. Em Lima, no Palacio del Gobierno há render da guarda ao meio-dia (má hora, pois o calor é insuportável). Impossível aproximarmo-nos das grades do palácio, como se faz em Londres, mas divertido para conviver com os populares e turistas e até bailar nas ruas ao som da parada militar.

Ceviche

Um peruano mete conversa. Acompanhado pelos netos, quer saber se consigo entendê-lo em espanhol e o que estou a fazer sozinha na capital. Avisaram-me para ter cuidado com as pessoas (muito abertas e amigas, mas nunca se sabe com que intuito), mas a polícia está por perto e às perguntas pessoais nem sempre se responde com a verdade. Mas ficam algumas ideias para visitar e comer no Peru (como o ceviche, uma espécie de peixe cru marinado que se pode comer como entrada ou prato principal). Digo adeus ao senhor, pois ainda quero comer e seguir no Mirabus que me vai levar a ver os principais pontos da capital.

O Lito que, apesar da camisola do Brasil, me falou e gosta do Cristiano Ronaldo

Sempre soube que nada na vida é definitivo ou previsível, mas parece que em Lima se tem muito mais consciência disso. Numa das movimentadas avenidas de lojas da capital, encontro o Carlos (Carlos = Carlitos = Lito, como o próprio me explicou). Está a aprender a falar inglês para arranjar emprego no aeroporto (agora distribui panfletos de tatuagens), por isso pensou que a minha tez e cabelos claros lhe trariam treino em línguas garantido. Acabei por deixar o Mirabus para depois, já que o Lito se disponibilizou a mostrar-me onde fica o supermercado da cidade, a zona das lojas artesanais e os principais monumentos a visitar no centro (“a plaza principal é ali, estás a ver onde te encontras? Estamos às voltas do mesmo local, sem problemas”, dizia-me o Lito para me sossegar. Acabei por não lhe dizer que estava a controlar tudo, que já me tinham dado um mapa no hotel e que sabia que a zona era segura, além da quantidade de polícias que continuava a ver nas ruas e das desculpas que iria depois inventar se ele me fizesse convites mais “duvidosos” e me tentasse levar para outros sítios).

Aprendi que confiar passa muito pelo que vemos nos olhos das pessoas e por mantermos a nossa verdade. Os olhos do Lito mostravam que tudo o que mais queria era apresentar-me o melhor da cidade e falar inglês (ainda que me tivesse ajudado mais a praticar o espanhol, tirou do bolso um caderno das aulas de inglês cheio de perguntas e utilizou-me como cobaia). A minha verdade dizia-me que, assim que me sentisse desonfortável ou desconfiada, devia arrepiar caminho, mas não foi necessário.

Hoje a aventura continua, talvez sem Lito (que vai estar na rua principal a distribuir panfletos), mas com a Claire que acabou de chegar de Londres. É a minha vez de me tornar útil e utilizar o que me ensinaram.

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